São Filipe Néri, o Santo da Alegria
(e uma dica de filme)

Era edificante ver o ancião de 70 anos levar centenas de moços a passeios e excursões; com eles brincava e se divertia. “Diverti-vos à vontade, contanto que não pequeis”, eram as palavras com que os animava.


Padre J. B. Lehmann | Pascom · 26 de maio de 2018


POUCOS são os santos da Igreja tão privilegiados como São Filipe Néri. Filho de pais nobres e piedosos, Filipe nasceu em 1515, na cidade de Florença. De boa índole, seus modos afáveis e sua inclinação para a oração deram ao menino de cinco anos o apelido de “o bom Filipe”. Um incêndio destruiu grande parte da fortuna de seus pais, e Filipe passou a morar com um primo, que era negociante riquíssimo em San Germano. Este primo prometeu-lhe estabelecê-lo como herdeiro de todos os seus bens se quisesse tomar a gerência dos seus negócios. O bom Filipe, porém, pouca inclinação sentia para os negócios. O que queria era ser santo e, apesar das repetidas insistências de seu primo, Filipe resolveu dedicar-se ao serviço de Deus. Fez os estudos de Filosofia e Teologia em Roma e começou desde logo a observar a regra de vida austeríssima que ficou sendo sua companheira até o fim da vida. Seus alimentos eram pão, água e legumes; para o sono reservava poucas horas, para a oração, porém, muitas.

No seu grande desejo de se dedicar à vida contemplativa, vendeu sua biblioteca, deu seus bens aos pobres e aprofundou seu espírito na meditação da Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo. Todo o seu tempo disponível passou nas igrejas; ou de preferência nas catacumbas. A graça de Deus tocou seu coração com tanta violência, que, prostrado por terra, exclamou muitas vezes: “Basta, Senhor, basta! Retende a torrente das vossas consolações, porque não tenho força para receber tantas delícias. Ó meu Deus, sendo tão amável, porque não me destes um coração capaz de vos amar condignamente?” Foi nas catacumbas de São Sebastião, no ano de 1545, que recebeu o Espírito Santo em forma de bola de fogo, que lhe adentrou a boca. Naquela ocasião, sentiu em si um ardor tão forte de amor de Deus que, devido às palpitações fortíssimas do coração, se deslocaram — definitivamente — a segunda e a quarta costelas: seu coração aumentou de tamanho, ficando-lhe uma visível saliência no peito.

“A Madona aparece a São Filipe Néri” (1740) por Sebastiano Conca

Como o amor de Deus, também era grande seu amor ao próximo. Filipe possuía o dom de atrair todos a si, circunstância para a qual concorriam muito sua afabilidade, sua cortesia e modéstia. Recorreu a mil estratagemas para ganhar os jovens nas ruas e oficinas de Roma. Era amigo de todos, e uma vez tendo adquirido sua confiança, preparava-os para a recepção dos sacramentos e os encaminhava para o bem. As noites passava nos hospitais, tratando dos doentes como uma mãe.

O monumento mais belo da sua caridade é a Irmandade da Santíssima Trindade, cujo fim principal era receber os romeiros e tratar dos doentes. Sua idéia achou eco entre a população, e as esmolas corriam abundantes para sua nova instituição. Cardeais, bispos, reis e príncipes, ministros, generais e princesas viam grande honra em poder pertencer a esta Irmandade. Viram-se exemplos de Papas (ao lado de jovens cristãos e em companhia dos Filhos de São Filipe Néri) se ajoelharem diante de pobres doentes, para lhes lavar e tratar as feridas.


“Quando celebrava a Missa, pelo espaço de duas a três horas ficava arrebatado em êxtase, enquanto seu corpo levitava à altura de dois palmos.”


Seguindo o conselho do seu confessor, Filipe recebeu o santo sacramento da Ordem, tendo já trinta e seis anos de idade. Seu desejo era trabalhar nas Índias como missionário e morrer mártir pela religião de Cristo. Pela vontade de Deus, porém, sua Índia havia de ser Roma, e lá ficou.

Deixando-se guiar pela Providência divina, tornou-se o Apóstolo da capital da cristandade. Algumas vezes no ano, com preferência nos dias do carnaval, organizava grandes procissões, que visitavam as sete igrejas principais de Roma. Para afastar o povo dos teatros e divertimentos perigosos, realizou os oratórios espirituais, isto é, representações teatrais de cenas bíblicas. Grande amigo da mocidade, à esta proporcionava muitas diversões e passeios. Era edificante ver o ancião de 70 anos quando levava centenas de moços a passeios e excursões; com eles brincava e se divertia. “Diverti-vos à vontade, contanto que não pequeis”, eram as palavras com que os animava.

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Filme para assistir com a família: Prefiro o Paraíso (2010), sobre São Filipe Néri

Grande parte do dia passava no confessionário, e só a Deus é conhecido o número das almas que a seus pés acharam a paz, o perdão e a salvação. Todos tinham-lhe uma confiança ilimitada.

Pelo fim da sua vida, já não lhe era possível dizer a santa Missa em público, tanta era a comoção que lhe sobrevinha na celebração dos santos mistérios. Estando no púlpito, as lágrimas lhe embargavam a voz quando falava do amor de Deus e da Paixão de Cristo. Quando celebrava a Missa, e chegando à santa Comunhão, pelo espaço de duas a três horas ficava arrebatado em êxtase, enquanto seu corpo levitava à altura de dois palmos. Não é para admirar que o Papa o consultasse nos negócios mais importantes e quisesse lhe beijar as mãos e a batina.

Fatigado e exausto de trabalhos e alquebrado pela idade, Filipe foi acometido de grave doença. Tendo-o examinado quatro médicos, estes saíram do quarto desanimados, quando ouviram o doente exclamar: “Ó minha Senhora, ó dulcíssima e bendita Virgem!” Foram ver o que tinha acontecido, e encontraram o santo que, elevado sobre seu leito e com os braços em êxtase, exclamava: “Não sou digno, não sou digno que vós, ó dulcíssima Senhora, vindes me visitar!” Os médicos se aproximaram e perguntaram ao doente pelo que sentia. Este, voltando a si e tomando sua posição costumeira no leito, perguntou: “Não a vistes, a Santíssima Virgem, que me livrou das minhas dores?” De fato, se levantou completamente curado e viveu mais um ano. Tendo predito a hora da sua morte, Filipe fechou os olhos para este mundo no dia 26 de maio de 1595. Seu enterro foi glorioso e, poucos anos depois da sua morte, foi beatificado pelo Papa Paulo V em 1614, e canonizado por Gregório XV em 1622.


Fonte: Padre João Batista Lehmann, S.V.D., ‘S. Filipe Néri, Fundador dos Oratorianos’, em Na luz perpétua (2 vols., Juiz de Fora, Lar Católico, 1928), vol. 1, pp. 321-324. — Adaptado.


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