Deus chama os cônjuges cristãos à perfeição, o que significa amar em todos os sentidos

Sem abraçar a Cruz santa e vivificante — por meio da oração diária, da abnegação, das boas obras e da adoração sacramental — o casamento fica exposto às tempestades do mundo.


Peter Kwasniewski | Tradução Equipe Pascom · 11 de maio de 2018


ESTADOS UNIDOS, 1 mai. 2018 (LifeSiteNews) — O Salmista suplica que amemos a casa do Senhor: “Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário” (Sl 26, 4).

Quão maravilhoso é pensar em São José, último dos patriarcas judeus, que tão perfeitamente pediu ao Senhor, e buscou d’Ele, que lhe fosse concedido o singular privilégio de viver na própria casa do Senhor Jesus, ou melhor, de oferecer sua própria casa como teto sobre a cabeça do Salvador, d’Aquele que, em seu ministério público, não teria onde reclinar a cabeça (Lc 9, 58). José contemplou a beleza do Senhor e meditou no Seu templo, cuidando das Suas necessidades, ou seja, das do Corpo que era o novo templo (Jo 2, 21).

O matrimônio cristão convida o homem e a mulher a se estimarem nos recessos do lar, a receber com paz de coração as consolações e as provas de sua vida comum, a depor suas alegrias e sofrimentos ao pé da Cruz — pois só da Cruz vêm a força e a dignidade do seu chamado (cf. Ef 5, 21-33). Eles são chamados, cada vez mais, a amar o Senhor, com Quem original e eternamente se desposaram no Batismo, pelo qual o cristão é tornado um só espírito com o Senhor. Este matrimônio espiritual — de cada um dos cônjuges com seu benfeitor celestial — agracia o matrimônio mesmo com a proteção do templo sagrado do Senhor.

A Sagrada Família com um passarinho
“A Sagrada Família com um passarinho” (c. 1650) por Murillo

O poeta Wordsworth expressou com beleza a ‘necessidade de amor humano’ como condição para permanecermos enraizados em nossa origem divina e para aspirarmos, como meta final, esta mesma origem:

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que este amor por um Amor maior ainda / seja santificado, Amor que não respira sem temor; / amor que não adora senão sobre joelhos em oração, / pelo céu inspirado; que liberta a alma dos grilhões, / trazendo, em união com as mais puras e melhores / paixões nascidas na Terra — nas asas do louvor — / um tributo mútuo ao Trono do Todo-Poderoso.

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Sem abraçar a Cruz santa e vivificante — por meio da oração diária, da abnegação, das boas obras e da adoração sacramental — o casamento fica exposto às tempestades do mundo, às tentações da carne e às maquinações do diabo. Os esposos caem na sensualidade, na indolência, na indiferença, no desespero — até mesmo no ódio — se primeiro sutilmente, depois abertamente, começam a se ver e a se tratar como inimigos ou oponentes em relação a desejos e necessidades reais ou imaginários. O único verdadeiro “programa pastoral” que a Igreja já teve e sempre terá é a Cruz de Cristo.

A ordem que Jesus dá não é meramente amar nossos inimigos e rezar pelos que nos perseguem (embora já pudemos achá-lo difícil o bastante) ou nos esforçar por toda uma vida! Não, Seu conselho é mais radical: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Ser perfeito significa trazer tudo dentro de si mesmo e dentro do casamento e da família, sob o jugo do amor, para o reino dos céus. É necessário aprender a ser humilde em nosso amor, porque é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um homem rico (ou seja, uma pessoa enamorada de si mesma e do que possui) entrar no reino dos céus.


“Sede perfeitos” equivale a dizer: ame em todos os sentidos, não ame apenas o que seja conveniente ou fácil ou natural de ser amado


Temos de nos tornar perfeitos — é isso que os antigos pagãos perderam de vista, antes da vinda do Senhor. Eles achavam que era suficiente ser virtuosos, fazer coisas virtuosas, cumprir com seus deveres e compromissos, ser um “bom cidadão”. Esta era a forma completa de uma boa vida. O cristão almeja algo mais: carregar sua cruz, morrer para si mesmo, viver pelos outros e tomar os sofrimentos e as lutas alheias como seus. A vida em comunidade é um tipo de crucificação, como disse o Beato Columba Marmion, porém com um desenlace de vitória, não de derrota. Pois a pior derrota é o egoísmo; a maior vitória é o amor altruísta.

“Sede perfeitos” equivale a dizer: ame em todos os sentidos, não ame apenas o que seja conveniente ou fácil ou natural de ser amado, mas lance-se à fornalha do amor que é Cristo, que morreu pelos homens enquanto eram pecadores e exilados — que morreu para tornar os homens dignos de amor, restituindo-lhes seu valor por meio do Seu precioso Sangue.

A única maneira de começarmos a amar como deveríamos é pedir incessantemente a Deus a graça de sermos transformados desde dentro, onde o inimigo ainda espreita e tenta se esconder sob milhões de desculpas e disfarces. Se estamos fazendo esta oração com todo o fervor, então já estamos progredindo rumo à meta; e se estas coisas são feitas e perseveram, “então tua luz surgirá como a aurora, e tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se, tua justiça caminhará diante de ti, e a glória do Senhor seguirá na tua retaguarda” (Is 58, 8).


Peter Kwasniewski é professor e mestre de coro na Faculdade Católica do Wyoming, nos Estados Unidos.


Publicação autorizada por/Publication authorized by LifeSiteNews.com. — Fonte: Peter Kwasniewski, ‘God calls Christian spouses to be perfect, which means to love in every way’, 1 mai. 2018.


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