É válido confessar-se “diretamente” com Deus, desdenhando a Confissão?

Se não recorremos aos sacerdotes para que nos abram a Porta do Céu, trabalhamos inutilmente, porque nenhuma pessoa, nenhuma obra, nenhuma virtude pode abri-la para nós.


Monsenhor Silvério Gomes Pimenta | Por Pascom · 23 de fevereiro de 2018


ALGUMAS pessoas, influenciadas pelo demônio, costumam sair com esta evasiva, dizendo: “Eu me confesso com Deus e lhe peço perdão, isto basta, não preciso chegar-me à Confissão”. Vãs ilusões! pernicioso engano! Para seres perdoado, o ponto não está em te confessares a Deus que, melhor do que tu, penetra no fundo do teu coração e nele descobre as máculas. Está, sim, em procurares o perdão pelos meios sacramentais, porque Ele o quer conceder para ti. Se recusas empregar os meios, nunca alcançarás o perdão.

Vimos como Jesus Cristo ligou o perdão à Confissão, dando as Chaves do Céu a São Pedro e, por meio dele, aos Sacerdotes. Se a eles não recorres para que te abram a Porta, trabalhas inutilmente; porque nenhuma pessoa, nenhuma obra, nenhuma virtude pode abrir a Porta para ti. Teria sido inútil confiar a São Pedro as chaves do Paraíso, se lá pudesse alguém ter entrada sem que por ele fosse recebido e introduzido. Demais disto, pretender tal coisa é acusar de tolo o mesmo Jesus Cristo, pois de que teria valido instituir um Sacramento, para perdão dos pecados, se qualquer um pudesse consegui-lo por outras vias? Tampouco devemos suspeitar que Nosso Senhor Jesus Cristo nos dificultou o perdão, obrigando-nos à Confissão, quando em tempos remotos sem ela se alcançava.

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Teria sido inútil confiar a São Pedro as chaves do Paraíso, se lá pudesse alguém ter entrada sem que por ele fosse recebido e introduzido


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Se o Sacramento da Confissão é, como vimos, de tão absoluta necessidade, concluímos que somos obrigados a recebê-lo ao menos algumas vezes na vida; porque, de fato, somos obrigados a empregar os meios necessários para alcançarmos nosso último fim, que é gozar a Deus no céu. Não se pode tampouco suspeitar que Jesus Cristo, deixando-nos este Sacramento (como único caminho para o cristão culpado chegar ao Paraíso), não o fizesse, ao mesmo tempo, obrigatório para os que dele necessitassem. De maneira que o pecador, ao desdenhá-lo, duas vezes se constitui criminoso de falta de caridade para consigo mesmo: uma por privar-se dos bens eternos da glória, para a qual foi criado; outra por desobediência a um preceito positivo de Jesus Cristo, nosso Divino Mestre.

Não determinou Ele, porém, as ocasiões em que teríamos de satisfazer essa obrigação; mas deixou a matéria ao juízo da Igreja, encarregada de nos dirigir na Terra, até introduzir-nos nas portas da bem-aventurança. A esta mãe nos ordenou que obedecêssemos em tudo, como a Ele mesmo — acolhendo, como a Si próprio dirigida, a sujeição que a ela prestássemos; e recebendo, como a Si próprio feitos, os desprezos com que a tratássemos. Ora, a Igreja manda que cada fiel, chegado ao uso da razão, se confesse ao menos uma vez cada ano, sob pena de incorrer na maldição do mesmo Deus, que não conhece por filho a quem não obedece à Igreja como mãe. Por não cumprir este só preceito, constitui-se réu de pecado mortal: e quantos anos omitir a Confissão, tantas culpas graves tem acumuladas na consciência.

Em — Silvério Gomes Pimenta (Monsenhor), A prática da confissão (2ª ed. aum., Rio de Janeiro, 1888), pp. 34-37. — Adaptado.


Monsenhor Silvério Gomes Pimenta

(1840-1922) Bispo de Mariana, professor, escritor e orador sacro

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